Diga o que lhe vier à mente

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Alguém já fez este pedido a você? Você já experimentou dizer seus pensamentos e sentimentos a alguém não restringindo nenhuma palavra, nem o jeito de falar? Recontar situações em que viveu, dizendo tudo o que pensou e sentiu a cada instante? Esta proposta aparentemente indevida é o que possibilita o tratamento psicológico sob a abordagem psicanalítica. Esta é o método fundamental que constitui o avanço do paciente frente ao seu sofrimento.

Quando este pedido é feito ao paciente, solicita-se que ele não tenha medo de suas palavras. Que ele as diga e as ouça atenciosamente, mas não com tanta atenção que não dê para ele se surpreender com algo que ele mesmo disser. Acatar a esta proposição, é topar encarar o tratamento, ou melhor, é ter a coragem de ficar face a face consigo mesmo.

Não há dúvidas de que receios surgirão ao se cogitar dizer o que se vive a alguém que a pouco se conhece, mas isso não só é esperado, como é parte do próprio tratamento. Há inclusive o conceito de holding que se refere ao movimento de acolhimento que o analista dirige ao analisando, buscando esta aproximação com o sofrimento e as questões do paciente…

Mas, deve-se dizer tudo sobre tudo? O Tudo nunca pode ser dito. Mas entre dizer este Tudo ou se calar diante do Nada, há um caminho, uma estrada entre estes dois lugares. E é exatamente ai onde nos situamos, entre aquilo que dizemos e deixamos de dizer, entre aquilo realizamos e o que gostaríamos de realizar… Sobre esse caminho do meio, muito se tem a dizer…

Sobre o ofício do psicólogo e quem o procura.

“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”

Nelson Rodrigues

Algumas pessoas chegam ao consultório crendo que sofrimentos se dissiparão conforme o psicólogo lhe dê conselhos, fórmulas ou receitas para sanar o mal-estar presentes em suas vidas. Fácil seria o ofício da escuta, caso houvessem técnicas imediatas para fornecer o equilíbrio e a paz interior à todos aqueles que nos procuram de maneira instantânea.

Tal qual a vida que nos apresenta no dia-a-dia, a análise pessoal se dá com jogos de tensões, risos, choro, memórias ora dolorosas, ora inesquecíveis. Buscar um psicólogo não se trata de fugir da vida, mas mergulhar naquilo que ela nos proporciona e buscar extrair novos sentidos daquilo que realizamos cotidianamente.

Como bem demonstrou Freud, a felicidade é uma conquista pessoal em que a terapia é um caminho possível para esta busca:

“A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo.” (Freud, 1930)

Neste sentido, o jargão “cada caso é um caso” é mais válido do que nunca para a psicologia. O psicólogo dedica-se em afinar sua escuta ao ritmo e conteúdo da fala de cada analisando, intervindo quando necessário, sabendo que o analisando fala de um lugar que ele próprio construiu para encarar a vida a partir de um ponto de vista específico e singular. O trabalho é árduo para os dois lados.

Para aqueles que aguardam conselhos e receitas para a felicidade, recomendo modos mais brandos e fáceis de encarar a vida… No consultório, se ouvirá outra coisa.

Mudar é preciso, pois viver também o é.

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Muitas pessoas chegam ao psicólogo querendo “mudar”. Mudar o modo de se relacionar com alguém, mudar o modo de sentir, mudar uma decisão que tomou, mudar o rumo da vida. A ânsia por mudança talvez seja produzida por um excesso de mudanças que presenciamos diariamente em nossos dias atuais. Pouca coisas são estáveis e a relação com aqueles que convivem conosco certamente não é uma delas.

No entanto, há um intervalo entre este desejo de mudança e sua concretização. A materialização da mudança pela “fala” realizada no consultório, é como um bebê que passa a dar os primeiros passos frente à aquisição do movimento de andar. Quedas são constantes nesse período e entre risos e choros novos horizontes vão surgindo em quem escolhe iniciar o processo de análise.

Após começar a caminhar, o analisando é convocado a tomar uma nova decisão, qual caminho seguir. E em muitos casos, neste momento, ocorre como um torcicolo, aquela dor no pescoço que nos impede de olhar para outra direção e perceber novos caminhos. Então, aos poucos, o pescoço começa a se movimentar ainda e em meio a instante doloroso,  passa a ser possível olhar e caminha para uma nova direção.

A união destes dois elementos o caminhar e o poder olhar em outra direção é uma metáfora ao processo de mudança que se desencadeia a partir da decisão de quem percebe que não se pode mais ficar parado frente a mutação constante em nossas vidas.

A análise: um caminhar junto temporário

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Muitas pessoas chegam ao psicólogo buscando ajuda para seus sofrimentos, perdidas e desnorteadas buscam uma bússola para que saibam uma direção a seguir. No decorrer do tratamento, analista e analisante vão descobrindo os pontos cardeias deste caminho, dentre os quais o analisante escolhe por onde irá seguir.

Em uma modernidade que não nos oferece nenhum direcionamento em nossas vidas, a sensação de estar perdido no mundo é comum. Deseja-se um lugar para se encontrar, um repouso para descobrir o que se deve fazer, questões como essas no caminho terapêutico são constantes.

O ato de falar, encarado como uma simples ação, guarda um potencial inesperado que vai se desenhando no decorrer do tratamento. Surpreendemo-nos com aquilo falamos ou deixamos de falar, narrando de maneira singular nossas memórias e sentimentos sobre o que vivenciamos.

Propor-se ir a um psicólogo e saber que não estará sozinho para mexer neste “baú” e que uma escuta atenta estará lá para acolher este tesouro.

Consumir, consumir, consumir… E?

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Em tempos da sociedade de consumo, é difícil encontrar que algo valha a pena, a não ser consumir mais. O movimento de receber o dinheiro e deixá-lo escapar, parece ser uma desarmoniosa sinfonia que rege nossas vidas.

É inegável o prazer que o consumo nos traz, tentar negá-lo seria uma perda de tempo. Mas, se pararmos para pensar, compramos para ter, mas este “ter” não pode ser qualquer um… Gostaríamos de adquiri algum bem, para usufruir em determinada situação com uma pessoa ou pessoas específicas, ainda que seja para uso próprio. Quando adquirimos algo, imaginamos uma situação ideal de satisfação com ele.

Ir a um psicólogo, não é simplesmente um “tempo para pensar em “si””. Pois, a cada vez que compramos estamos pensando em nós e sendo assim, seria apenas mais um meio de consumo. É um tempo para percebermos as constelações de relações nas quais estamos envolvidos e podermos falar sobre elas. Portanto, é uma atitude que reflete naqueles que fazem parte de nosso cotidiano como familiares e amigos, possibilitando novas maneiras de lidar com estes personagens de nossas vidas.

A maneira mais fácil de perceber que ir a um psicólogo não é um bem de consumo, é pensar que o dinheiro investido em uma análise pessoal, não é um investimento óbvio como comprar coisas que estão na moda. É necessário hesitar para ir a um psicólogo, tomar um susto com algo que a  vida nos coloca, dar um passo atrás e perceber: “opa, daqui em diante não dá mais para continuar, é preciso fazer algo.”

O passado que ainda passa

“Meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado, o passado vive em mim.” Paulinho da Viola

pegadasFrequentemente, deparo-me com pessoas queixando-se de seu passado, como aquele que atormenta suas vidas, aquele que não deixa elas fazerem as coisas como faziam antigamente, uma nuvem negra que parece pairar sobre suas mentes ou mesmo um fantasma que está a suspirar memórias desagradáveis em seus ouvidos. Se “transtornados pelo passado” fosse um possível diagnóstico psiquiátrico, candidatos não faltariam.

Em uma tentativa de aniquilar o passado e suas memórias, muitos preferem dizer que “não vivo do passado, isso é coisa de museu.” No entanto, o fato de acreditar em frases como essa, não apaga, nem refaz o que passou. Algumas vezes, pode servir como consolo temporário mas com data de validade já determinada até um próximo evento que ative alguma memória e mais uma vez, o tormento retornará.

Em contrapartida, há aqueles que são “Gabriela”, “eu nasci assim, vou ser sempre assim” e não se questionam, nem ousam falar sobre o passado, afinal nada, nem ninguém nunca irá mudar, portanto deve-se apenas se manter calado. Em seu silêncio, guardam certezas e sofrimentos que se camuflam diariamente.

Há, no entanto, um terceiro caminho, o qual a psicanálise pode nos oferecer. Perceber que somos sedimentados por nosso passado, que ele nos deixou marcas e não podemos voltar atrás para modificá-las. Entretanto, isso não nos impede de falar sobre ele. E falar sobre ele é viver o hoje sabendo que o passado vive em nós, como citado na frase do grande Paulinho da Viola no início deste texto. Portanto, não se trata de apagá-lo, muito menos esquecê-lo, mas aprender a conviver com ele.

Manifestantes da (in)satisfação

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.” Oscar Wilde

Diante das manifestações do mês de Junho, algumas revistas de Psicologia estamparam em suas capas, a imagem de manifestantes e o título do texto freudiano “Mal-estar na civilização”. Datado de 1930, fatos como esse indicam a atualidade do que foi escrito por Freud ainda naquela época. Mas, neste texto, Freud escreveu apenas sobre questões políticas?

Um dos temas tratados no texto condiz com o que vimos no Brasil no último mês. Freud descreve que a sociedade moderna estaria seccionada entre duas forças: a “força bruta” que designa as vontades do indivíduo e o “Direito” que reflete as vontades da maioria. O conflito entre elas seria o motivo de inúmero embates travados no interior de uma sociedade. Além disso, o “Direito” não deveria buscar benefícios a um seleto grupo mas ao maior número de pessoas possível.

Diante disso, parece que alguns brasileiros se deram conta de que havia um seleto grupo buscando regalias para si mesmos e decidiram manifestar-se contra isso. A indignação de alguns com a má utilização da verba pública, misturada com inúmeras outras questões, tomou conta dos noticiários do país durante algumas semanas. O tempo passou e alguns reflexos das manifestações ainda ressoam por ai…

Mas, o intuito deste texto é caminhar um pouco além da questão das manifestações e chegar a outras questões que o texto de Freud aborda e refletem em nossa vida afetiva. Por exemplo, queriam os manifestantes uma satisfação completa de suas reivindicações? Queriam eles acabar com toda sua insatisfação? Para Freud, a completa satisfação de nossas vontade culminaria no fim de nossas vidas, pois só continuamos existindo enquanto desejamos algo…

Entre a completa insatisfação e a total satisfação, parecemos ser seres que migram constantemente entre estes dois polos sem nunca atingir nenhum dos dois. A modernidade nos vende a ideia de que devemos ser constantemente satisfeitos pelos outros, caso contrário, não estão sendo justo conosco, não estão à nossa altura, estão nos desrespeitando… Enfim, uma série de expressões que nos convencem de que somos dignos de algo.

No entanto, estas constantes interpelações por satisfação nos revelam que por mais que imploremos para sermos satisfeitos, parecemos sempre estacionar em pedidos. Ou seja, nossa constante insistência em pedir que nos satisfaçam aponta que jamais poderemos nos satisfazer completamente. Por mais banal que esta ideia possa parecer, se paramos para pensar em nossas relações afetivas, há muito o que dizer e refletir sobre isso…

Um exemplo claro é quando dizemos aos quatro cantos que não estamos pedindo muito a alguém quando desejamos que ela mude algo na relação, ao passo que este pedido só é apresentado quando argumentamos que a relação está “insuportável” da maneira como as coisas estão. Estar insuportável é acompanhado da ideia de que o outro não está nos satisfazendo como achamos que merecemos…

Suportar uma relação é caminhar nesta corda bamba da insatisfação e da satisfação, sempre pendendo ora para um lado, ora para outro. Podemos não carregar cartazes, mas estamos sempre ávidos a reivindicar algo do outro…